"Quando acaba o movimento, acaba a graça": Zeka Ramos e a arte de habitar o próprio corpo
Criador de conteúdo com milhões de seguidores e um dos fundadores da ARKO Mov, apresenta a cultura do movimento e fala sobre mercado wellness
Escrito por Roberto Amazonas · 11 de agosto de 2026


Zeka Ramos começou a treinar aos 14 anos por um motivo simples: queria emagrecer. Sete anos de CrossFit, competições e uma evolução constante de cargas e repetições depois, ele chegou a um limite que ninguém havia te contado que existia: o tédio. Não o tédio de quem desistiu, mas o de quem aprendeu tudo que havia para aprender dentro de um único sistema e percebeu que o corpo humano é muito maior do que qualquer modalidade consegue abarcar.
Foi nesse momento que Zeka encontrou o que hoje chama de cultura do movimento, uma forma de entender o exercício não como treino para um resultado, mas como exploração contínua das capacidades do próprio corpo. Dessa descoberta nasceu o bordão "seja natural" que o tornou conhecido nas redes, e depois a ARKO, espaço físico em Brasília e plataforma digital com alunos no mundo inteiro, criado ao lado dos educadores Lucas e Clara. A Badauê conversou com ele sobre corpo, cultura brasileira e o futuro do wellness.
A pergunta que muda tudo
Existe uma pergunta que Zeka diz fazer para si mesmo constantemente para manter a prática viva: como posso fazer o meu corpo funcionar melhor? Não como posso levantar mais, correr mais rápido ou ter um abdômen mais definido, mas como posso, de fato, fazer o corpo funcionar melhor. A diferença parece sutil, mas muda completamente o que acontece quando você vai treinar.
"O NOSSO CORPO ESTÁ CONSTANTEMENTE LIDANDO COM DUAS FORÇAS: A GRAVIDADE, QUE EMPURRA PARA BAIXO, E A FORÇA DE REAÇÃO, QUE EMPURRA PARA CIMA. E O NOSSO CORPO TÁ TENTANDO SE ORGANIZAR O TEMPO INTEIRO ENTRE ESSAS DUAS FORÇAS",
Quando ele fala em inteligência corporal, é exatamente isso que está em jogo: a capacidade de se expor a contextos variados para que o corpo aprenda a navegar por diferentes situações, não apenas repetir um padrão dentro de uma única modalidade. Um joelho bem treinado para o agachamento na academia é diferente de um que aprendeu a se dobrar e a se estabilizar em diferentes planos de movimento.
Essa distinção entre forma zero e forma específica atravessa toda a metodologia da ARKO MOV, escola de movimento que Zeka fundou ao lado dos educadores Lucas Neves e Clara Molina. Os três têm bagagens diferentes, mas compartilham a mesma convicção: o corpo humano foi construído ao longo de milhões de anos de evolução para se mover de formas muito mais variadas do que qualquer rotina de academia contempla, e ignorar isso tem um custo que a maioria das pessoas só percebe quando começa a sentir dor.
O Brasil e o mercado fitness
Num país onde o futebol, o samba, a capoeira e o jiu-jitsu são parte do cotidiano de milhões de pessoas, seria de esperar que o mercado de fitness brasileiro tivesse desenvolvido uma linguagem própria, ancorada na sabedoria corporal que essas expressões carregam. Mas não é o que acontece. A maior parte das academias e metodologias de treino populares no Brasil são adaptações de referências estrangeiras, enquanto a riqueza de movimento que o país produz nativamente não é tratada como fonte de conhecimento sobre o funcionamento do corpo.
"A gente tenta observar as coisas muito pela caixinha", diz Zeka.
"EU FAÇO JIU-JITSU, OU EU FAÇO DANÇA, OU EU FAÇO CAPOEIRA. MAS SE A GENTE COMEÇAR A OLHAR COM A LENTE DAS QUALIDADES QUE ESTÃO POR TRÁS, A GENTE VAI COMEÇAR A DAR MAIS VALOR E VER O TANTO QUE É COMPLEXO ESSA FORMA DE MOVIMENTO."
Para ele, quando se olha para a capoeira pelo filtro da cultura do movimento, podemos ver uma aula de equilíbrio dinâmico, de transferência de peso, de consciência espacial e de improvisação motora que poucas outras práticas no mundo conseguem oferecer na mesma densidade. O mesmo vale para o samba, para o futebol de rua, para qualquer expressão corporal que o Brasil desenvolveu ao longo de séculos.
O problema, segundo Zeka, está em confundir o conteúdo com o container. "Se você olha para a dança e fala: aquilo ali é dança, você tá resumindo uma riqueza de conteúdo a um container, a um nome." Quando se atravessa esse nome e se pergunta quais capacidades físicas estão sendo desenvolvidas por aquela prática, é que a riqueza aparece. E essa riqueza, para o educador físico, ainda é inexplorada pelo mercado de wellness e fitness.
Movimento e saúde mental: o que acontece quando você para de contar repetições
Na ARKO MOV, não existe separação entre trabalho do corpo e trabalho da mente. A estrutura dos treinos é pensada para que a pessoa esteja de fato presente no que está fazendo, percebendo como o corpo se organiza no espaço, como a respiração muda com o esforço, como cada movimento se conecta ao anterior. Não executando uma série enquanto pensa no que vai fazer depois de sair da academia.
Zeka identifica nessa presença a diferença entre um treino que termina quando acaba a última repetição e um treino que deixa algo. "A gente tá muito mais interessado no movimento. Quando acaba o movimento, acaba a graça." O que ele chama de estado de flow dentro do movimento, essa sensação de estar completamente dentro do que se está fazendo, é ao mesmo tempo a meta da prática e o método. Não é possível persegui-la como se persegue um resultado estético, porque ela só aparece quando o resultado deixa de ser o foco.
Essa virada de perspectiva tem efeitos que vão além do físico. Quando o exercício passa a ser uma experiência em si, a relação com o próprio corpo muda.
Por onde começar
Para quem quer transformar a relação com o próprio corpo mas não sabe por onde começar, a resposta de Zeka desafia qualquer expectativa por uma lista de exercícios e afirma começar pela educação.
"A GENTE VIVE EM INCOMPATIBILIDADE EVOLUTIVA. O AMBIENTE E A CULTURA EVOLUÍRAM MUITO MAIS RÁPIDO DO QUE A NOSSA CAPACIDADE DE SE ADAPTAR. ENTÃO A GENTE SOFRE COM DORES, COM LOMBAR DURA, COM OMBRO DURO. NÃO PORQUE O CORPO É FRACO, MAS PORQUE A GENTE MUDOU O AMBIENTE DE FORMA MUITO RÁPIDA E AINDA NÃO CONSEGUIU SE ADAPTAR."
Brinca ao dizer que “a solução não é voltar para a floresta”, e afirma que é compreender o que é compatível com o corpo que a evolução construiu ao longo de milênios. E as práticas compatíveis, segundo Zeka, são surpreendentemente simples: se pendurar, ficar de cócoras, sentar mais no chão, ter mais contato com a natureza.
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