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Cultura & Comportamento

O futuro da humanidade está sendo treinado agora

Na 15ª edição do Festival Social Good Brasil, um painel sobre infâncias, algoritmos e inteligência artificial colocou uma pergunta urgente em discussão: que sociedade estamos formando?

Escrito por Roberto Amazonas · 24 de setembro de 2026

O futuro da humanidade está sendo treinado agora 
 
 
 
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Créditos: Reprodução

A inteligência artificial já faz parte da vida cotidiana. Está nas ferramentas de trabalho, nas plataformas digitais, nos mecanismos de busca e, cada vez mais, na maneira como pessoas acessam informações, produzem conteúdos e tomam decisões. Mas o que acontece quando essa tecnologia passa a participar também da formação de crianças e adolescentes?

Essa foi uma das questões colocadas em debate durante a 15ª edição do Festival Social Good Brasil (FSB), realizada em Florianópolis, na segunda quinzena de setembro. No painel “O futuro da humanidade está sendo treinado agora”, especialistas discutiram os impactos da inteligência artificial sobre as infâncias e levantaram uma questão que ultrapassa os limites da tecnologia: quais são os limites do que podemos delegar à IA?

Participaram da conversa Catharina Doria, especialista em ética de inteligência artificial e comunicadora no The AI Survival Club; Silvia Luz, psicóloga, empreendedora social e diretora executiva do Social Good Brasil; Isabella Ferro, analista de projetos na Safernet Brasil e educadora social; e Andreza Maia, cofundadora da Futuros Possíveis e especialista em inovação inclusiva.

A discussão partiu de uma constatação: crianças e adolescentes estão crescendo em uma sociedade mediada por algoritmos. A questão, portanto, não é apenas aprender a utilizar novas ferramentas, mas compreender como elas podem interferir na capacidade de pensar, criar, escolher e conviver.

O que estamos terceirizando?

Para Catharina Doria, o primeiro ponto de atenção está na possibilidade de terceirização de capacidades que deveriam continuar sendo desenvolvidas pelos próprios indivíduos.

“NÃO DEVEMOS SER PASSIVOS À TERCEIRIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA PARA AS TECNOLOGIAS. O RISCO NÃO ESTÁ NA IA EM SI, MAS NA NOSSA DISPOSIÇÃO DE ABRIR MÃO DO QUE É ESSENCIALMENTE HUMANO EM FAVOR DE UMA FERRAMENTA. PARA ADULTOS, O PRINCIPAL PERIGO É A PERDA PROGRESSIVA DE HABILIDADES COGNITIVAS E DE AUTONOMIA DE PENSAMENTO. PARA CRIANÇAS, OS RISCOS SÃO AINDA MAIORES E MAIS DIFÍCEIS DE REVERTER”

argumenta Catharina

Entre os riscos discutidos está o chamado deskilling, ou perda de habilidades. Quando uma criança recorre à IA para solucionar um problema antes de desenvolver a capacidade de questioná-lo, deixa de exercitar justamente o percurso mental que contribui para a construção do raciocínio. Desse modo, é a ferramenta que pode oferecer uma resposta pronta. O que ela não necessariamente oferece é o processo de pensamento necessário para chegar até ela. E é nesse processo que se desenvolvem a curiosidade, a capacidade de formular perguntas, o pensamento crítico e a autonomia.

Outro ponto levantado no painel foi o risco de um desempoderamento gradual. Ao transferir para sistemas de inteligência artificial decisões que poderiam ser tomadas por pessoas, reduz-se também o espaço para experimentar, escolher, errar e corrigir. Essas experiências são fundamentais para o desenvolvimento da autonomia e também para a convivência coletiva. Negociar, argumentar, ouvir o outro e lidar com diferentes pontos de vista são habilidades que se constroem na experiência humana, e não apenas no acesso a respostas.

Quando pensar começa a se parecer demais

A discussão avançou para uma terceira questão: a possibilidade de homogeneização do pensamento. Se diferentes pessoas recorrem às mesmas ferramentas, alimentadas por grandes bases de dados e modelos semelhantes, existe o risco de que respostas e referências também se aproximem. A diversidade de perspectivas — justamente aquilo que alimenta a criatividade, o debate e a construção coletiva — pode perder espaço.

É nesse ponto que a discussão sobre inteligência artificial encontra uma dimensão particularmente brasileira. As grandes bases de dados utilizadas pelos modelos de IA foram construídas em contextos nos quais referências culturais, linguísticas e históricas brasileiras nem sempre ocupam o mesmo espaço. Para Andreza Maia, essa distância aparece em situações aparentemente simples, mas que revelam uma questão mais profunda: a capacidade de uma tecnologia compreender as especificidades de uma cultura.

“NÃO É POSSÍVEL FALAR DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SEM FALAR DE CONTEXTO. UMA IA PODE ATÉ RESPONDER SOBRE UMA RECEITA DE PAMONHA, MAS ISSO NÃO SIGNIFICA QUE ELA COMPREENDA TUDO O QUE EXISTE POR TRÁS DESSA RECEITA, DA MESMA FORMA QUE NÃO NECESSARIAMENTE COMPREENDE OS SENTIDOS DE EXPRESSÕES COMO ‘ÉGUA’, ‘BAH’, ‘TCHÊ’ OU ‘OXENTE’”

enfatiza Andreza Maia

Nesse sentido, a discussão sobre IA também é uma discussão sobre repertório. Quem alimenta as tecnologias? Quais histórias estão presentes nos dados? Quais culturas são reconhecidas? E quais podem permanecer invisíveis?

A infância como território de formação

Se os adultos já precisam rever a maneira como utilizam a inteligência artificial, o debate se torna ainda mais sensível quando envolve crianças. As participantes do FSG defenderam que o uso da tecnologia precisa considerar o estágio de desenvolvimento de cada indivíduo. Antes de receber respostas prontas, uma criança precisa experimentar o processo de construir perguntas, buscar caminhos, cometer erros, rever escolhas e elaborar suas próprias conclusões.

A questão, portanto, não seria impedir que as novas gerações conheçam a tecnologia, mas preservar o espaço necessário para que desenvolvam aquilo que a tecnologia não deve substituir: Pensar. Criar. Discordar. Imaginar. Escolher. Errar. Recomeçar. Essas são experiências que fazem parte da formação humana e que não podem ser simplesmente terceirizadas.

O debate do Festival Social Good Brasil não apontou para uma rejeição da inteligência artificial. A provocação foi outra: estabelecer limites para o lugar que essas ferramentas ocupam na vida cotidiana. Para os adultos, isso significa utilizar a IA de maneira consciente e intencional, mantendo o domínio sobre a ferramenta e preservando o julgamento humano nas situações que exigem experiência, responsabilidade e contexto.

Para as crianças, significa reconhecer que existe um tempo de formação que não pode ser acelerado pela tecnologia. A pergunta que atravessou o painel, portanto, permanece aberta. Se a inteligência artificial está sendo incorporada cada vez mais cedo à vida das novas gerações, o que estamos ensinando a elas quando permitimos que uma máquina pense, escolha ou responda antes que elas mesmas tenham a oportunidade de fazê-lo?

Talvez o futuro da humanidade esteja sendo treinado agora. E a questão mais importante não seja apenas o que a inteligência artificial será capaz de fazer, mas o que nós escolheremos continuar fazendo por nós mesmos.

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