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Cultura & Comportamento · Institucional

Carnaval provoca arte para ganhar novo olhar

Quando o Carnaval entra na conversa sobre arte contemporânea, a pergunta talvez não seja mais se ele é arte. Mas por que demorou tanto para essa conversa acontecer

Escrito por Monica Coronel · 21 de setembro de 2026

Carnaval provoca arte para ganhar novo olhar 
 
 
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Créditos: Badauê
Carnaval provoca arte para ganhar novo olhar 
 
 
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Créditos: Badauê

Foi essa uma das inquietações que atravessaram o painel Arte e Carnaval, realizado no último domingo, na programação da ArtRio 2026, com mediação de Alícia Cesario, CEO e cofundadora da Badauê, e participação dos carnavalescos e pesquisadores Leonardo Bora, Gabriel Haddad, Leandro Vieira e Milton Cunha.

A discussão ganhou ainda mais força em um fim de semana em que o Carnaval ocupou outros espaços do circuito artístico do Rio. No MAM Rio, a exposição Carnaval como método levou para o espaço museológico processos de criação dos desfiles das escolas de samba, reunindo obras inéditas de carnavalescos em atividade e trabalhos históricos de nomes como Rosa Magalhães e Joãosinho Trinta.

O que se ouviu na ArtRio não foi uma reivindicação por uma chancela. Foi quase o contrário. O Carnaval não precisa da instituição arte para existir ou se legitimar.

Leonardo Bora chamou atenção para a linguagem carnavalesca como uma produção múltipla, irrepetível, feita de saberes, memórias, cores, texturas e diferentes campos artísticos. Uma linguagem que, segundo ele, não cabe facilmente nas classificações e nem nos espaços.

Crédito: Badauê

Gabriel Haddad reforçou a importância da rua, da cultura popular e da liberdade de criação, questionando vocabulários e práticas que permanecem presos a modelos coloniais. Para ele, o que aproxima Carnaval e arte contemporânea é justamente a relação crítica com o mundo.

Milton Cunha levou a discussão para a história. Lembrou que o Carnaval brasileiro nasceu também de desfiles, alegorias, procissões e manifestações populares e chamou atenção para uma divisão histórica: enquanto determinadas produções chegam aos museus e são reconhecidas como arte, outras permanecem associadas ao lugar de arte popular.

Créditos: Badauê
Créditos: Badauê

E então veio a provocação de Leandro Vieira:

"O FERNANDO PINTO FAZIA ARTE CONTEMPORÂNEA. O JOÃOSINHO TRINTA FAZIA ARTE CONTEMPORÂNEA. A ROSA MAGALHÃES FAZIA ARTE CONTEMPORÂNEA. O RENATO LAGE FAZ ARTE CONTEMPORÂNEA. ENTÃO EU FICO PENSANDO: POR QUE SÓ AGORA? POR QUE SÓ AGORA ESSE DIÁLOGO?"

Talvez essa seja a pergunta que permaneça depois do painel. Porque os quatro participantes não enxergam uma separação entre o fazer artístico e o fazer carnavalesco. O que existe é uma fronteira construída por classificações, instituições, conceitos e modos históricos de legitimação. E essas fronteiras estão sendo atravessadas.

O reconhecimento de carnavalescos por premiações e a presença de suas obras em museus ampliam a visibilidade, mas não necessariamente transformam o fazer carnavalesco. Como foi colocado no debate, a obra continua sendo produzida. O que muda é o lugar de onde ela passa a ser observada.

É aí que está o devir.

A ArtRio não encerrou a discussão. E talvez esse seja justamente o seu valor. O painel sinalizou que existe uma conversa em curso entre Carnaval, arte contemporânea, instituições, artistas, pesquisadores e sociedade. Uma conversa que ainda precisa aprofundar conceitos, rever classificações e, sobretudo, compreender a dimensão artística de uma manifestação que há mais de um século produz imagens, narrativas, performances, música, cenografia, figurino, pesquisa, memória e pensamento.

Como sintetizou Milton Cunha, os novos carnavalescos estão "soltando os Exus na cara do establishment".

Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo. Não é o Carnaval tentando entrar na arte. É a arte sendo provocada a olhar para o Carnaval de outra maneira. E, quando uma pergunta como essa começa a circular, alguma coisa já está em movimento.

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