Como a música popular constrói a identidade de cidades e regiões
Dos manguezais recifenses às vilas de pescadores de Florianópolis, os ritmos que definiram o Brasil nasceram onde o Estado não chegava
Escrito por Redaçāo Badauê · 22 de julho de 2026


Antes de ser produto, a música é território. Ela ancora memórias a lugares específicos, organiza o sentimento de pertencimento a uma comunidade e molda a forma como uma cidade se enxerga e é enxergada pelo mundo. Quando uma região tem uma música que é sua, essa música carrega muito mais do que acordes: carrega história, conflito, resistência e identidade. E quando essa música desaparece ou é apagada, algo da própria cidade some junto.
O samba que foi crime
O samba carioca é um dos exemplos mais contundentes desse processo. Originário de comunidades negras baianas que migraram para o Rio de Janeiro depois da Abolição, o ritmo se fixou na região da Pequena África, no centro da cidade, e foi desde o início perseguido, criminalizado e taxado de vadiagem. Praticar a capoeira ou tocar o samba nas ruas rendia prisão. A mesma polícia que reprimia os sambistas nas esquinas do Rio seria, décadas mais tarde, convocada para proteger o desfile das escolas de samba nas avenidas.
A domesticação estatal do samba, promovida pelo projeto nacionalista de Getúlio Vargas na década de 1930, transformou um ritmo marginalizado em símbolo nacional e ferramenta de coesão política. O samba que a polícia proibia virou carta postal do Brasil, exportado para o mundo como prova de uma harmonia racial que nunca existiu da forma que foi vendida. Mas mesmo domesticado, o samba manteve nas rodas dos botequins, nas quadras das escolas e nos morros cariocas uma vitalidade que nenhuma instrumentalização estatal conseguiu apagar de todo.
O manguezal como metáfora
Em Recife, o processo foi diferente, mas igualmente revelador. No início dos anos 1990, a cidade era classificada entre as piores metrópoles do mundo em qualidade de vida, com rios destruídos, estuários aterrados e uma crise estrutural que ameaçava sufocar qualquer expressão cultural viva. Foi nesse cenário de abandono que emergiu o Manguebeat.
Um grupo de músicos, jornalistas e ativistas decidiu injetar energia criativa na lama dos manguezais recifenses, fundindo maracatu, frevo e coco de roda com rock, hip-hop e música eletrônica. O manifesto Caranguejos com Cérebro, escrito por Fred Zero Quatro em 1992, propôs a criação de uma rede de produção de ideias pop que desbloqueasse as artérias sônicas da cidade. O manguezal, com sua biodiversidade e resiliência em condições adversas, virou metáfora perfeita para o Recife periférico e negro que se recusava a definhar.
Chico Science e Nação Zumbi levaram essa fusão para festivais na Europa e nos Estados Unidos, exportando uma identidade periférica que o mercado fonográfico nacional ignorava. Após a morte de Chico Science em 1997, o poder público em Recife foi progressivamente incorporando o discurso do Manguebeat às políticas culturais da cidade, criando estátuas, dando nomes a túneis e produzindo memoriais. O protesto virou patrimônio. A questão que fica é se o processo de museificação preservou ou neutralizou o que tornava aquele movimento vivo.
As cidades que aprenderam a usar a música como estratégia
Salvador e Recife são as únicas cidades brasileiras reconhecidas pela UNESCO como Cidades Criativas da Música, e cada uma usa esse título de forma distinta. Em Salvador, declarada Cidade da Música em 2016, a economia criativa apoia-se num ecossistema que vai do Carnaval a programas como o Salvador Sonora, voltado à formação de mulheres líderes e jovens de comunidades negras e indígenas, e ao Afródromo, que integra música, artes cênicas e mídia de matriz afro-brasileira. A marca identitária da capital baiana transforma o espaço público em palco principal de sociabilidade e inclusão.
Em Recife, o frevo e o maracatu funcionam como pilares de reabilitação urbana e governança cultural participativa. Eventos como o Abril Pro Rock, o Porto Musical e o Rec'n Play atuam como âncoras de atração de negócios e estimulam novas parcerias econômicas. A música deixa de ser apenas expressão cultural para se tornar instrumento de desenvolvimento territorial.
O Brasil que o Brasil não conhece
Em Santa Catarina, a construção identitária pela música acontece em escala menor, mas com igual profundidade. Em Laguna, uma filarmônica fundada em 1860 segue ativa mais de 165 anos depois e foi reconhecida como Patrimônio Imaterial do estado em 2024. Em Blumenau, as sociedades de canto alemãs sobreviveram à proibição do Estado Novo e continuam transmitindo tradições que chegaram com os imigrantes. Em Florianópolis, o Boi de Mamão açoriano ainda anima comunidades da ilha, e bandas como o Dazaranha transformaram o dialeto manezinho em poesia elétrica que virou referência musical do estado.
Cada um desses casos conta a mesma história de formas diferentes: a música popular como resistência ao apagamento, como arquivo vivo do que uma comunidade decidiu não deixar morrer.
O que a música sabe que o urbanismo ignora
A música popular nomeia bairros, celebra pescadores, chora migrantes, denuncia despejos e organiza resistências. Ela registra o que nenhum documento oficial quis guardar e transmite o que nenhum currículo escolar ensinou. Quando uma cidade aprende a escutar sua própria música com atenção, ela aprende também quem são as pessoas que a constroem todos os dias fora dos holofotes.
O risco, sempre presente, é o da instrumentalização. Quando o poder público percebe o valor econômico e simbólico de uma expressão musical, a tentação de domesticá-la é grande. O samba virou espetáculo de exportação. O Manguebeat virou patrimônio municipal. E muitas vezes, no processo de ser reconhecida, a música perde exatamente o que a tornava necessária: a capacidade de dizer o que ninguém mais quer ouvir.
Os ritmos que mais definiram o Brasil nasceram onde o Estado não chegava. Das favelas cariocas aos manguezais recifenses, das vilas de pescadores de Florianópolis às periferias paulistanas, a música popular brasileira é, antes de qualquer coisa, uma forma de existir com dignidade num país que ainda insiste em ignorar quem a cria.
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