Comunicando a Moda Brasileira com Airon Martin
Como ressignificar o que já faz parte da nossa cultura? Para Airon Martin, diretor criativo da Misci, a resposta está nos códigos brasileiros que carregam memória, afeto e impacto social. No segundo episódio da série Comunicando a Moda Brasileira, a Badauê conversa com ele sobre percepção global, união no mercado e o que faz do gingado nacional um diferencial competitivo.
Escrito por Badauê · 11 de setembro de 2025

Códigos Brasileiros: Do Clichê ao Luxo
Airon defende que a criatividade brasileira não precisa inventar a roda, mas ressignificar símbolos já enraizados em nosso cotidiano. Um exemplo é o filtro de barro — lembrança da casa da avó, mas também peça fundamental para a saúde pública do país.
“É clichê? Sim. Mas é a partir desse clichê que eu consigo criar algo desejável globalmente”, afirma.
Para o diretor criativo, fugir desses códigos seria negar a própria história. O desafio está em transformá-los em produtos que dialoguem com o mercado internacional sem perder a força cultural que os origina.



Comunicação Verbal: Luxo que Fala
Na Misci, tudo comunica — das campanhas à trilha sonora da loja. Airon aposta em um luxo transparente, conectado às vozes que compõem a cultura brasileira.
“A Misci é verbal. Isso incomoda quem espera do luxo um silêncio francês. Mas o meu luxo é outro: é a banda Calcinha Preta tocando na loja, são as Irmãs de Pau cantando a própria história no desfile. Nada mais luxuoso que a verdade.”
Para ele, a tendência mais forte da comunicação hoje é a transparência: mostrar o processo, as referências e os sons que fazem parte da criação.
Moda Brasileira ≠ Subcategoria
Airon questiona o rótulo “moda brasileira” como se fosse necessário um empurrão para existir no mercado global.
“Moda é moda — e roupa é roupa. Não precisamos de subcategorias como ‘moda nacional’ ou ‘moda autoral’. Toda moda verdadeira é, por natureza, autoral.”
Ele lembra que selos como Made in Italy ou Made in France nasceram de projetos de Estado e defende que o Brasil precisa construir uma percepção semelhante: vender produtos com identidade, valor agregado e impacto social.



Coletividade x Competição
Para além da criatividade, o que falta ao mercado brasileiro, segundo Airon, é união.
“Muitas vezes, o fracasso não está na falta de talento, mas na falta de acesso. A vitória do outro não deveria ser sentida como derrota pessoal. Precisamos reconhecer a direção criativa como profissão, e não apenas como um papel imposto ao empreendedor.”
Ele relembra experiências de troca e colaboração entre marcas como uma via necessária para fortalecer a moda nacional de forma coletiva.
Designer x Artista
Airon se define como diretor criativo com olhar de designer. Isso significa equilibrar desejo, estratégia e história sem cair na caricatura.
“O papel do designer é entregar para a sociedade aquilo que ela quer — ou que nem sabe que quer. Meu trabalho é contar o Brasil sem reduzi-lo a estereótipos, mas em diálogo com códigos globais.”
O Gingado que Dança com a Música
Se Rener Oliveira descreveu o gingado como persistência e invenção, Airon vai além: para ele, o gingado brasileiro é a capacidade de adaptação.
“A Misci agacha no quadradinho e sobe sarrando. Esse é o gingado: não é um movimento fixo, é a capacidade de mudar conforme a música. Se eu me coloco acima, perco a conexão — e paro de ouvir a batida.”
Comunicar com Verdade
Assim como na estreia da série, a reflexão de Airon Martin mostra que comunicar moda é tão essencial quanto criá-la. Não basta falar de estética ou tendência: é preciso contar histórias com coragem, memória e propósito.
“O Brasil tem potência criativa, mas precisa parar de se enxergar como subcategoria. O luxo não está na aparência — está na verdade.”
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