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Cultura & Comportamento

Sete álbuns brasileiros para quem gostou do EQUILIBRIVM II da Anitta

Da encruzilhada ao streaming, confira as vezes que música brasileira cantou a fé de matriz africana

Escrito por Redação Badauê · 17 de agosto de 2026

Sete álbuns brasileiros para quem gostou do EQUILIBRIVM II da Anitta — imagem 1
Crédito: Anitta

Quando a Anitta lançou EQUILIBRIVM II, seu nono álbum de estúdio, a espiritualidade de matriz africana estava no centro do projeto: nas colaborações com Maria Bethânia, Mart'nália, MC Tha e Katú Mirim, na estética visual desenvolvida pela diretora criativa Nidia Aranha e nos bastidores de uma produção que buscou artesãos, bordadeiras e criadores de diferentes territórios do Brasil para compor a identidade do álbum.

MC Tha, uma das colaboradoras do disco, é também uma das artistas desta lista. Sua presença nos dois lados dessa história mostra que a conversa sobre orixás, terreiros e música popular brasileira é contínua e atravessa gerações e gêneros. A música brasileira tem uma tradição longa e rica de colocar as religiões de matriz africana no centro da obra. Listamos 7 discos que fazem isso muito bem!

Os Tincoãs — Canto Coral Afro-Brasileiro
Créditos: Reprodução

Os Tincoãs — Canto Coral Afro-Brasileiro

Os Tincoãs nasceram em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, no fim dos anos 1950, e são um dos grupos vocais mais importantes da história da música brasileira. Sua marca é o canto coral a três vozes que funde a herança do canto de igreja, das rezas e das cantigas de candomblé numa linguagem que não separa o sagrado do musical porque, para o grupo, essa separação nunca fez sentido.

Canto Coral Afro-Brasileiro une o canto do grupo a uma formação coral e traz referências ao candomblé e a orixás como Iansã, Iemanjá e Obaluaiê. O caráter de material "achado no tempo", gravado décadas antes de seu lançamento efetivo, faz dele um documento de memória sonora tanto quanto uma obra musical.

Serena Assumpção — Ascensão

Serena Assumpção era ligada à família de Itamar Assumpção, um dos nomes centrais da vanguarda paulistana. Ascensão é seu álbum construído a partir da estrutura de um xirê, a sequência ritual em que os orixás são saudados um a um numa festa de candomblé. O disco percorre diferentes orixás ao longo de treze faixas, começando por Exu, o senhor dos caminhos e da comunicação que abre todo trabalho, e encerrando em Oxalá, o pai da criação.

Com produção associada a Kiko Dinucci, o álbum tem forte carga espiritual e afetiva, e tornou-se um lançamento póstumo. A estrutura de xirê dá ao disco uma dramaturgia sagrada: ouvir do começo ao fim é atravessar uma gira inteira, do começo ao encerramento de uma festa que não devia ter terminado.

Serena Assumpção — Ascensão
Créditos: Reprodução
Grupo Ofá — Ìyá Àgbà Sirê — O Poder do Sagrado Feminino
Créditos: Reprodução

Grupo Ofá — Ìyá Àgbà Sirê — O Poder do Sagrado Feminino

O Grupo Ofá assina um álbum inteiramente dedicado às forças femininas do candomblé, celebrando divindades como Nanã, Oxum, Obá, Iemanjá, Ewá e Iansã. O título, cujo Ìyá Àgbà remete às "mães ancestrais", e o subtítulo O Poder do Sagrado Feminino anunciam um recorte deliberado: em vez de percorrer todo o panteão, o disco se concentra nas iabás, as orixás femininas, e na potência da ancestralidade materna.

É um álbum que não precisa de pretexto para existir. A decisão de celebrar o feminino sagrado com essa especificidade é, por si só, um ato de afirmação cultural e espiritual que diz muito sobre a riqueza do Brasil que ainda está por ser plenamente reconhecida.

Metá Metá — Gira

Gira nasceu como trilha para o espetáculo homônimo do Grupo Corpo, a companhia de dança de Belo Horizonte. O trio Metá Metá, formado por Juçara Marçal na voz, Kiko Dinucci na guitarra e violão, e Thiago França nos sopros, partiu de Exu e de sua relação com o corpo, o movimento, a comunicação e a transformação para compor uma partitura que dialoga com a coreografia.

É o encontro de duas linguagens potentes: o Metá Metá, referência do experimentalismo paulistano que cruza samba, punk, jazz e ritmos de matriz africana, e o Grupo Corpo, uma das companhias de dança mais reconhecidas do país. A escolha de Exu como ponto de partida é precisa: o orixá do movimento e das encruzilhadas é também o princípio de toda dança e de toda comunicação, a divindade que abre os caminhos e que rege a própria ideia de transformação.

Metá Metá — Gira
Créditos: Fernando Eduardo
MC Tha — Rito de Passá
Créditos: Reprodução

MC Tha — Rito de Passá

Em Rito de Passá, MC Tha coloca sua relação com a umbanda no centro do álbum, aproximando orixás, ciclos da natureza e a transformação de sua própria trajetória, que começa no funk paulistano. O título já anuncia: um rito de passagem. A artista funde a batida e a linguagem do funk com pontos de umbanda, cantos e referências de terreiro, criando um híbrido de periferia e sagrado que recusa qualquer separação entre os dois.

MC Tha foi celebrada como uma das vozes mais originais de sua geração exatamente por isso: não trouxe o terreiro como referência estética, mas como fé. E é também uma das colaboradoras de EQUILIBRIVM II, presença que mostra como essa conversa sobre espiritualidade e música brasileira é contínua e viva.

Sued Nunes — Segunda-feira

Segunda-feira é uma homenagem a Exu que parte das raízes de Sued Nunes no Recôncavo Baiano para falar sobre caminhos, movimento, recomeços e ancestralidade. O título carrega uma camada de significado litúrgico: a segunda-feira é, em muitas tradições, o dia dedicado às almas e a Exu, o começo da semana como metáfora do recomeço e da abertura de caminhos.

Num disco que parte de um território e de uma fé específicos, Sued Nunes faz o que a música do Recôncavo sempre soube fazer: transforma o local em universal sem precisar abrir mão de nenhum dos dois.

Sued Nunes — Segunda-feira
Créditos: Reprodução
Majur — Gira Mundo
Créditos: Reprodução

Majur — Gira Mundo

Em Gira Mundo, Majur reúne dezesseis cantigas para os orixás, cantadas em iorubá e apresentadas em novos arranjos, celebrando sua fé e as tradições do candomblé. Artista de Salvador, Majur pega o repertório litúrgico do terreiro, cantigas que normalmente vivem no espaço ritual, e o recria com arranjos contemporâneos, levando-o ao streaming e ao palco sem diminuir sua carga sagrada.

É um ato de afirmação identitária e religiosa que funciona porque Majur não tenta tornar o candomblé palatável para quem não o conhece. Ela o apresenta inteiro, em iorubá, com a confiança de quem sabe que a beleza do que está fazendo dispensa tradução.

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