"A casa brasileira mais original que existe vem do terreiro": Daniel Virgínio, do Cafofo do Dani, fala sobre estética, repertório e o jeito brasileiro de habitar
Criador de conteúdo construiu uma linguagem própria sobre o morar brasileiro que vai da cerâmica pernambucana ao ferro forjado
Escrito por Roberto Amazonas · 23 de julho de 2026



Daniel Virgínio cresceu dentro de um hotel. E não, isso não é uma metáfora: seu pai ajudou a construir o primeiro resort de Florianópolis e Daniel cresceu observando camareiras montarem quartos, acompanhando o pai em viagens a Monte Sião para comprar louças e absorvendo, desde criança, uma linguagem de acolhimento que viria a definir tudo o que faz hoje. Quatro meses por ano, porém, ele trocava o resort pela zona norte do Rio de Janeiro, onde a família da mãe vivia e onde o avô marceneiro restaurava móveis antigos do Estado e levava o neto às feiras de antiguidades do centro carioca.
Esse contraste, entre a capital catarinense e a capital carioca e entre o moderno e o feito à mão, é o fio que atravessou toda a trajetória do “Cafofo do Dani”.
A casa que veio do terreiro
Se você perguntar a Daniel qual é a referência mais original da casa brasileira, a resposta vem sem hesitação. "É a casa de terreiro. Quando a gente tem esse território espiritual de rituais, onde se pode fomentar uma casa cheia de significados, é isso." Sua afirmação não inclui somente a decoração temática, mas o comportamento. De como o sal grosso na porta, o filtro de barro, a disposição dos objetos em casa carregam uma memória que veio da África e dos povos indígenas e se instalou no cotidiano brasileiro.
"A MAIOR PARTE DO NOSSO COMPORTAMENTO DENTRO DE CASA VEM DO TERREIRO, MAS AS PESSOAS INSISTEM EM IGNORAR ESSA FORMA DE ENTENDER."
Para Daniel, o problema não é a mistura, já que o Brasil sempre foi feito de misturas. O problema é quando essa mistura acontece sem reconhecimento. "A gente tem uma renda de bilro, uma trança de palha, um trançado que é da ilha açoriana de Portugal, mas que se tornou patrimônio brasileiro porque faz parte do processo das nossas casas. Não tem como desconsiderar isso."
Essa consciência histórica influencia diretamente a forma como ele lê o mercado de decoração no Brasil hoje. "O modernismo, o brutalismo, o neoclássico, o art nouveau. Essas grandes misturas potencializam o Brasil que a gente tem como história." Mas há uma diferença importante entre misturar com consciência e misturar por imitação”, afirma. Além disso, destaca que quando o mercado começa a viralizar referências sem entender sua origem, o resultado, na avaliação de Daniel, é uma curadoria que envelhece rápido
"A PRÓPRIA PALAVRA CURADORIA JÁ ESTÁ DEFASADA".
O que o Brasil tem e não usa
Uma das perguntas que Daniel mais se faz é sobre quais materiais e referências visuais o Brasil subutiliza. A cerâmica aparece como paixão central, com nomes que ele acompanha de perto. O mestre Mano de Baé, pernambucano, que representa uma geração de ceramistas artesãos, e a Aline Angeli, que veio do jornalismo e desenvolveu uma pesquisa própria até chegar às esculturas em barro. "Ela saiu de um lugar que já não é só de artesã. Conseguiu desenvolver uma pesquisa e materializar isso em esculturas, criar a série guardiões. É um trabalho muito especial."
Mas o material que ele sente mais falta de ver sendo trabalhado com profundidade é o ferro. "É antiquíssimo, mas sinto falta de ter mais mão de obra de arte e de peças." Ele cita também como referência recente, um tipo de arte que saiu da arte popular e entrou numa linguagem mais contemporânea sem perder a raiz.
"COM O RENASCIMENTO DOS ADINKRAS E O QUE ELES SIGNIFICAM PARA AS ÚLTIMAS GERAÇÕES, ACHO QUE O FERRO AINDA TEM MUITO A OFERECER."
As cores também entram nessa equação, e com força. "Se a gente fizer uma análise de cores no Brasil de ponta a ponta, tem pigmentações muito fortes. O urucum dos indígenas, o barro da África, o verde e o amarelo e o rosa das fachadas coloniais. Do Pará até Porto Alegre, o Brasil tem muitas cores." É esse repertório de cores que Daniel carrega para os ambientes que cria, e é por isso que consegue combinar verde com laranja de um jeito que parece natural, porque é.
Quando o assunto é arquitetura e design de interiores, Daniel cita a arquiteta Janete Costa como uma referência que vai além do óbvio. "Ela batia de frente com o estilo de arquitetura dos anos 80 e 90, trazendo obras de arte e colocando o artesão e o mestre nesse lugar de destaque." Mais recentemente, Maurício Arruda ocupa esse papel de conectar o artesanato brasileiro ao design contemporâneo com coerência. "Ele entrelaça esse lugar da melhor maneira possível."
"SE A GENTE FIZER UMA ANÁLISE DE CORES NO BRASIL DE PONTA A PONTA, TEM PIGMENTAÇÕES MUITO FORTES. O URUCUM DOS INDÍGENAS, O BARRO DA ÁFRICA, O VERDE E O AMARELO E O ROSA DAS FACHADAS COLONIAIS. DO PARÁ ATÉ PORTO ALEGRE, O BRASIL TEM MUITAS CORES."
Como o brasileiro consome arte e como deveria
Para Daniel, há uma distância real entre como o brasileiro de fato se relaciona com arte e decoração e o que o mercado supõe sobre esse consumo. "A arte e a cultura não são ensinadas para a gente desde criança, a não ser que venha de família muito rica. Então a gente entende a arte muito tarde." Isso cria um ciclo em que o repertório visual das pessoas fica restrito ao que a internet oferece, que é cada vez mais algorítmico, superficial e efêmero.
A saída que ele propõe é analógica.
"COMECE PELOS MUSEUS DA SUA CIDADE. PROCURE CENTROS CULTURAIS, ESPAÇOS QUE POSSIBILITEM ARTE DE TODAS AS FORMAS. COMEÇA A QUESTIONAR O QUE INCOMODA E O QUE VOCÊ NÃO GOSTA, PARA ENTENDER SE É AÍ QUE VOCÊ TEM QUE APROFUNDAR."
A Pinacoteca de São Paulo, por exemplo, tem feito pesquisas que ele considera fundamentais, com uma parede inteira dedicada a artistas pretos. "A gente tá reacendendo pesquisas que são importantes."
E muito menos internet. "Muito menos olhar para o que a gente tem nas redes hoje e muito mais para o analógico. Busque livros, revistas, saia para esses lugares que precisam ser vistos e relembrados." Essa não é uma postura nostálgica, mas estratégica. Daniel trabalha com internet desde 2016 e sabe como o algoritmo funciona. Por isso mesmo escolheu não jogar esse jogo.
"EU NUNCA QUIS FALAR COM ALGORITMO. QUERO FALAR COM PESSOAS. SE TEM 10 ASSISTINDO, CONSEGUI CAPTAR 10. DAQUI A POUCO VÊM MAIS 10. DE GRÃO EM GRÃO A GENTE VAI FAZENDO UM MONTÃO."



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