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Marcas & Experiências

O que o desfile da MISCI diz sobre o momento da moda brasileira

A coleção "Escapismo Tropical" da MISCI, apresentada no Rio Fashion Week de abril de 2026, foi uma declaração sobre como marcas brasileiras podem transformar infraestrutura cultural em linguagem estratégica.

Escrito por Redação Badauê · 17 de abril de 2026

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O espaço como tese: a primeira marca de moda a desfilar na Marquês de Sapucaí

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O espaço como tese: a primeira marca de moda a desfilar na Marquês de Sapucaí

Existe uma diferença entre usar um lugar como fundo e usá-lo como argumento. A MISCI, ao desfilar na Marquês de Sapucaí em 17 de abril de 2026 — tornando-se a primeira marca de moda a ocupar o Sambódromo em um desfile —, fez a segunda coisa. E o fez dentro da programação da primeira edição do Rio Fashion Week, num momento em que a marca já vinha construindo uma narrativa contínua com a cidade: abertura da primeira loja carioca, campanhas fotografadas em solo local, presença acumulada. A Sapucaí foi o passo seguinte numa sequência deliberada, não um golpe de efeito isolado.

O Sambódromo não é um espaço neutro. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1984, ele foi concebido como uma cidade efêmera que se ativa uma vez por ano para receber o maior espetáculo popular do Brasil. Levar um desfile de moda para dentro dele não é uma analogia: é uma afirmação sobre o que a marca acredita que a moda pode — e deve — ser. Na Sapucaí, a produção foi à altura do endereço: uma passarela azul atravessou a avenida como linha de horizonte, evocando o mar carioca; ao fundo, a Apoteose enquadrou a cena; e a bateria da Beija-Flor de Nilópolis — 80 ritmistas, dois mestres e dois diretores — pulsou como trilha ao vivo. Não havia como separar o desfile do lugar. Era exatamente essa a intenção.

A coleção "Escapismo Tropical" parte de uma tensão precisa: o Brasil é percebido, de fora, como território de pausa — sol, corpo, música, leveza. Mas a MISCI inverte esse olhar. Para quem vive aqui, o carnaval não é intervalo: é estrutura. A festa não é evasão; é um modo de reorganizar a vida quando tudo ao redor parece desmoronar. Ao trazer as referências do Rio dos anos 1970 — o Pier de Ipanema, o movimento das Dunas do Barato, a liberdade de Gal Costa e Maria Bethânia durante a ditadura — para conversar com os códigos do interior de onde Airon Martin vem, a coleção propõe que o tropicalismo não é cartão-postal. É uma forma de continuar, apesar de tudo.

Para marcas que trabalham com cultura, há um ensinamento aqui que vale guardar: a escolha do espaço de apresentação não é logística. É editorial. Onde uma marca aparece diz, antes de qualquer peça, o que ela pensa de si mesma e do mundo.

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Colaboração como método e como posicionamento

A MISCI poderia ter feito um desfile bonito com referências à cultura popular e encerrado por aí. Não fez. O que a coleção revela — e que merece atenção analítica — é uma arquitetura de colaborações construída com coerência metodológica rara no mercado brasileiro.Do artesanato à alta costura: em parceria com o Instituto do Bordado Filé de Alagoas, liderado pela artesã Petrúcia Lopes, a marca aprofundou uma colaboração que já vinha da coleção anterior, agora com novas escalas e intervenções. O grupo Redeiras, formado por artesãs da Colônia de Pescadores São Pedro, no extremo sul do Brasil, transformou redes de pesca descartadas em tecidos e acessórios — memória, sustentabilidade e ressignificação material num único gesto. Já a bordadeira Wendy Cao, brasileira radicada em Paris com passagem por ateliês de Dior, Valentino, Chanel e Schiaparelli, desenvolveu intervenções manuais sobre couro plissado com palha de buriti e fio azul, conectando a precisão da alta costura ao universo sensorial da coleção.No eixo de inovação material, a parceria com a Nova Kaeru e a beLEAF™ resultou em um couro vegano feito de capim, que preserva fibras, veios e irregularidades visíveis — um material efêmero transformado em superfície duradoura. A alfaiataria da linha Airon Martin ganhou fluidez com a incorporação da seda. O jeans ressurgiu via upcycling. E a madeira Imbuia entrou como matéria-prima central nas joias esculpidas à mão.No campo das parcerias de marca, a VEJA e a MISCI apresentaram um sneaker exclusivo — o modelo Paulistana reinterpretado com couro de pirarucu, design assimétrico e inspiração nos biomas dos Lençóis Maranhenses e da Amazônia. A Riachuelo viabilizou looks em nova fibra sustentável desenvolvida com a Canatiba Têxtil, com um gift colecionável produzido por bordadeiras de Timbaúba dos Batistas. A Lenny Niemeyer estendeu sua colaboração com novas estampas marinhas e beachwear em tricot.Essa constelação não é acidental. Ela mapeia uma posição: uma marca que transita entre o artesanato nordestino e a alta costura parisiense, entre a escola de samba da periferia fluminense e o design de rua global, entre a fibra do interior e o mercado internacional. A MISCI não usa referências brasileiras como decoração. Ela as co-produz — com as pessoas que as detêm.Para profissionais da economia criativa, isso levanta uma questão prática: a colaboração estratégica não é uma questão de cachet ou de visibilidade cruzada. É uma forma de construir repertório com credibilidade distribuída. Cada parceria funciona como um nó em uma rede de legitimidade — e essa rede, no conjunto, diz algo que nenhuma campanha isolada conseguiria comunicar.
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O que o mercado pode ler de Escapismo Tropical da Misci

O Rio Fashion Week, em sua retomada, escolheu a MISCI como um dos seus centros gravitacionais. Isso também é um dado relevante. Não porque a marca seja a mais comercial — mas porque ela representa uma narrativa que o mercado de moda brasileiro precisa e tem dificuldade de formular: a de que é possível ser local com profundidade e global com autenticidade, simultaneamente.A coleção "Escapismo Tropical" oferece uma resposta cultural a um momento específico. Num mundo atravessado por conflitos, deslocamentos e instabilidades, o Brasil passou a ser imaginado, de fora, como refúgio — o lugar onde a vida acontece em outra frequência. A MISCI não rejeita esse olhar, mas o complexifica: a leveza tropical não é fuga, é construção. E ao narrar isso a partir do Sambódromo, com a bateria da Beija-Flor ao vivo e parcerias que vão de Alagoas a Londres, a marca devolve ao mundo uma imagem do Brasil que não cabe em cartão-postal.Para marcas que constroem narrativa de identidade — especialmente as que operam na intersecção entre produto, cultura e território —, o mecanismo é transferível: encontre a tensão real entre como o mundo te percebe e como você se percebe por dentro. Transforme essa tensão em linguagem. Escolha o palco com intenção. E traga junto quem já carrega o saber que você quer honrar — não como figurante, mas como co-autor.O Sambódromo estava vazio quando a MISCI chegou. Quando a bateria começou, ele tinha um novo significado. Isso é o que uma marca com visão de mundo faz com o espaço que ocupa.

“A SAPUCAÍ É UM PORTAL. E, TODA VEZ QUE EU PASSO POR ELE, QUERO SER LEVADO DE VOLTA AO BRASIL.”

Airon Martin, fundador e diretor criativo da MISCI.

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