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"O Brasil não conhece a Amazônia como a Amazônia conhece o Brasil": vencedora do Prêmio Badauê fala sobre processo criativo e Amazônia

Patrícia Brasil, fotógrafa paraense, que conquistou o primeiro lugar do Prêmio Badauê - Gingado Brasileiro com "A margem que rema no tempo" conta como a câmera virou passaporte para conhecer a própria terra

Escrito por Roberto Amazonas · 13 de julho de 2026

"O Brasil não conhece a Amazônia como a Amazônia conhece o Brasil": vencedora do Prêmio Badauê fala sobre processo criativo e Amazônia — imagem 1
Crédito: Patrícia Brasil
"O Brasil não conhece a Amazônia como a Amazônia conhece o Brasil": vencedora do Prêmio Badauê fala sobre processo criativo e Amazônia — imagem 2
Crédito: Patrícia Brasil
"O Brasil não conhece a Amazônia como a Amazônia conhece o Brasil": vencedora do Prêmio Badauê fala sobre processo criativo e Amazônia — imagem 3
Crédito: Patrícia Brasil

Patrícia Brasil é engenheira e administradora de formação. Começou na fotografia há vinte anos, mas só nos últimos cinco passou a encará-la como profissão. Nascida em Belém, carrega no trabalho uma intimidade com a Amazônia que ela mesma define como algo que vai além da razão. Foi esse olhar, profundamente ancorado no território e nas pessoas que o habitam, que rendeu a Patrícia o primeiro lugar na estreia do Prêmio Badauê - Gingado Brasileiro, com a obra "A margem que rema no tempo".

Crédito: Patrícia Brasil
O dia em que a grande foto aconteceu sem aviso
Foto em destaque garantiu o vitória na primeira edição do Prêmio Badauê

O dia em que a grande foto aconteceu sem aviso

A história da imagem vencedora começa com um convite despreocupado. Uma amiga chamou Patrícia para visitar a comunidade do Combu, ilha que fica a dez minutos da capital paraense. Ela foi, como sempre vai, com a câmera, mas sem roteiro. O dia foi de futebol, de conversa, de brincadeira na beira d'água. Quando as crianças foram para o rio, ela foi junto. Fotografava e brincava ao mesmo tempo, imersa naquele cotidiano de uma forma que só acontece quando a câmera deixa de ser um instrumento e passa a ser uma extensão do olhar.


"EU ACHO QUE AS GRANDES IMAGENS ACABAM ACONTECENDO QUANDO A GENTE ESTÁ NUM ESTADO EMOCIONAL PROFUNDO. PODE SER UMA GRANDE ALEGRIA, PODE SER UMA GRANDE IMERSÃO. NAQUELE DIA EU ESTAVA PORQUE FOI MUITO DIVERTIDO"

Relembra que a luz estava difícil, o sol alto e tinha muito contraste. Para ela, sua presença foi uma das responsáveis pela fotografia que venceu o prêmio.

A câmera como passaporte para a própria terra

Patrícia fala da fotografia como quem fala de uma linguagem que desbloqueou algo que já existia dentro dela. Ela era engenheira, sentia que estava embrutecendo nos números, como ela mesma descreve, quando encontrou num curso de fotografia uma forma diferente de olhar para o mundo.

"EU LEMBRO DE COMO EU FICAVA FASCINADA. UM CADEADO PASSOU A SER ALGO INTERESSANTÍSSIMO. QUALQUER DETALHE"

Esse encontro foi também com a Amazônia. Quanto mais ela fotografava, mais ela queria conhecer. Comunidades do Marajó, cidades do interior do Pará, manifestações culturais espalhadas pelo estado. A câmera abriu portas que a timidez teria mantido fechadas. "Sem a câmera, provavelmente eu não ia ouvir as histórias que eu escuto, eu não ia tomar os cafezinhos que eu tomo, eu não ia entender como as coisas funcionam em outros lugares do meu estado." Numa dessas viagens, anos depois de começar a fotografar, ela descobriu pelo pai que seu bisavô havia nascido naquela cidade que ela tanto sentia.

"ENTÃO ÀS VEZES EU FICO PENSANDO QUE TEM ALGO POR AÍ ALÉM DO QUE A GENTE RACIONALIZA"

afirma Patrícia

Fotografar a Amazônia de dentro

A fotógrafa faz uma distinção que diz muito sobre o seu trabalho: existe uma diferença entre fotografar a Amazônia e fotografar a partir dela. O olhar de quem chega de fora carrega inevitavelmente uma distância que molda o que se escolhe registrar. O olhar de quem é dali parte de outro lugar.

Ela tem uma lista mental de lugares que quer fotografar. Manifestações culturais pelo Brasil inteiro. Celebrações que existem só na oralidade, na tradição de comunidades que guardam histórias que nenhum livro registrou.


"CADA UMA CONTA UMA HISTÓRIA E A GENTE VAI ENTENDENDO MAIS DE ONDE VEM ALGUMAS COISAS QUE FORAM TÃO APAGADAS POR TANTO TEMPO"

Fotografar a Amazônia de dentro
Crédito: Patrícia Brasil

O processo criativo: sentir antes de fotografar

Patrícia afirma não planejar de forma ferrenha as suas fotografias, mas que planeja quais são os lugares que vai. O resto, ela deixa rolar. A criatividade percorre um caminho de sentimento. Ela vai para um lugar aberto, conta as próprias histórias enquanto escuta as dos outros, e é desse relacionamento que surgem as imagens. As referências que alimentam seu olhar não são só visuais. São músicas que a fazem chorar, cenas de filmes que a tocam sem que ela entenda de imediato por quê.

"SEMPRE PENSO: POR QUE ESTÁ ME EMOCIONANDO TANTO? É POR ESSE CAMINHO QUE EU VOU DESENVOLVENDO A CRIATIVIDADE"

O prêmio e o Brasil que o Brasil ainda não conhece

A artista nos conta que já havia ganhado alguns prêmios antes, mas faz questão de distinguir o que é diferente no Prêmio Badauê. "Um festival é uma coisa muito mais fechada. Não trabalha tanto essa comunicação." Ganhar um prêmio de uma plataforma que tem como missão traduzir a identidade cultural brasileira em linguagem contemporânea muda a natureza da visibilidade que vem depois. "Eu sei que tem pessoas que estão vendo as minhas fotos que talvez não sejam pessoas que vivam no circuito da fotografia. Mas isso vai tocar as pessoas. O que importa é a arte tocar."


Ela seguia a Badauê desde o início da plataforma. Admirava a curadoria corajosa, o jeito de falar de um Brasil com movimento e vida. "Sempre falando de um Brasil que eu acredito e que é o que o meu olhar chama." Ser a primeira vencedora do prêmio, vinda do Norte, significa para ela algo que vai além do reconhecimento pessoal. "O Brasil não conhece a Amazônia como a Amazônia conhece o Brasil." A frase é direta e carrega um peso histórico que dispensa desenvolvimento. Está tudo ali, na obra que venceu o prêmio, nos corpos que correm para a água, na margem que rema no tempo.

A coletânea de fotos que a obra premiada pertence, pode ser conferida completa abaixo

"O BRASIL NÃO CONHECE A AMAZÔNIA COMO A AMAZÔNIA CONHECE O BRASIL"

enfatiza a artista
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