Franco-brasileiras, fundam grupo de altinha em Paris: "O esporte é uma forma de criar comunidade em qualquer canto"
Dois anos depois, o que começou como remédio para a saudade virou encontros abertos, aulas para iniciantes e uma das imagens mais inesperadas da capital francesa
Escrito por Roberto Amazonas · 6 de outubro de 2026

Quando se pensa em altinha, o primeiro pensamento vai direto às praias do Brasil. O jogo, que nasceu no litoral carioca nos anos 1950 e 1960, é simples na forma e sofisticado na prática: quatro jogadores mantêm uma bola de borracha no ar usando pés, joelhos, cabeça e qualquer parte do corpo, sem deixá-la tocar o chão. O jogo, diferente da maioria dos esportes, funciona sem adversário e sem placar. Um movimento em Paris, na França, tem levado um pouco dessa cultura para bem longe das areias cariocas.
Clarisse Lagore e Isadora Liron cresceram no Rio de Janeiro, estudaram no liceu francês e tinham a altinha como parte do cotidiano. Quando decidiram ir para Paris fazer faculdade, já sabiam que sentiriam falta de muita coisa, como as praias e o jogo. A solução foi simples: levar a bola junto.
Clarisse tem 22 anos. Isadora, 21. As duas são franco-brasileiras, cresceram entre duas culturas e chegaram a Paris com a consciência de que uma coisa faria muita falta. "A gente veio muito do futebol. O futebol e o time fariam muita falta pra gente, fazia parte do nosso cotidiano", conta Clarisse. A ideia foi espontânea. Queriam continuar jogando e dando visibilidade para a altinha, esporte que os franceses não conheciam. Começaram a jogar em lugares públicos e a postar vídeos.
O que aconteceu depois elas mesmas não esperavam.
O jogo que ninguém conhecia
Antes dos vídeos viralizarem, Clarisse e Isadora eram só estudantes em Paris, trabalhando em recepção de hostel e como garçonetes de restaurante para se manter. Jogavam com amigos cariocas que moram na cidade. Aos poucos, pelo Instagram, outros brasileiros foram aparecendo. E então começaram a aparecer os franceses.
A reação era sempre de surpresa. "Quando a gente começava a jogar em público, as pessoas ficavam bem chocadas", conta Clarisse. "Até hoje, quem não conhece a altinha, muitas vezes, olha e parece que não acredita que é possível uma mulher dominar uma bola." A dupla é direta sobre o que identificou nessa reação: admiração, mas também um lado machista que o contexto brasileiro tornava invisível. "No Rio, a gente já estava acostumada a ver muita mulher jogando. Você nem percebe o quanto isso faz parte da cultura."
Explicar a altinha para quem nunca viu exige paciência e uma certa poesia. Não é simplesmente manter a bola no ar. O objetivo é a continuidade, a sintonia entre os jogadores. "Você precisa estar atento no movimento do outro, criar uma sequência junto, como uma dança", explica Isadora.
"NÃO EXISTE ADVERSÁRIO E NÃO EXISTE PLACAR. A GENTE ESTÁ JUNTO PASSANDO UM MOMENTO BOM."
O estranhamento e o encantamento
O que mais estranha os franceses, segundo as duas, é a lógica cooperativa do jogo. "Eles estranham a dinâmica de ataque e defesa. A gente joga junto, não contra os outros. Demora um pouco para chegar na cabeça deles." Estranha também o fato de o jogo ser de quatro pessoas exatas. "Às vezes eles acham até que é um pouco rude quando chega uma quinta e a gente explica que não aceitaríamos que essa pessoa entrasse na hora."
Mas o encantamento supera o estranhamento. "O que mais encanta é a nossa técnica, o jeito brasileiro, essa técnica de jogar bonito que só a gente tem. É muito fluido, tem improvisação, tem sequência de movimento, tem estética própria. E mesmo quem nunca jogou consegue perceber que existe algo muito bonito nessa forma de jogar."
Dois anos depois do primeiro jogo nos parques parisienses, a altinha virou encontros abertos ao público, rodas de conversa, aulas para iniciantes e parcerias com espaços culturais da cidade. A organização tem a cara de quem organizou.
"EU E CLARISSE ESTAMOS ENCARREGADAS DE LEVAR BOLAS. O PESSOAL QUE TEM BOLA LEVA TAMBÉM. UM LEVA A CERVEJA, O OUTRO LEVA O COOLER. E ASSIM A GENTE VAI MONTANDO OS ENCONTROS NO JEITINHO BRASILEIRO."
Mais que saudade
Para Clarisse e Isadora, a altinha carrega um conceito que elas descrevem com precisão: o estado de flow, aquele momento em que corpo, mente e presença estão completamente conectados ao jogo.
"A ALTINHA FALA MUITO SOBRE CONEXÃO. VOCÊ SENTE NA HORA QUANDO O QUARTETO NÃO ESTÁ CONECTADO, PORQUE A ALTINHA SIMPLESMENTE NÃO FLUI."
No futuro, espera encontrar respostas
O que elas sentem que estão levando do Brasil para Paris vai além do esporte. "Não estamos simplesmente ensinando uma técnica com a bola. A gente está compartilhando uma parte da nossa cultura, da cultura carioca, criando uma nova forma de conexão entre as pessoas." A altinha, segundo as duas, representa muito do que é o Rio de Janeiro: esporte, praia, encontro, convivência e a capacidade de criar comunidade em qualquer canto.
O próximo desafio é prático: encontrar um espaço para o inverno parisiense, que impossibilita jogar ao ar livre. A expansão para outras cidades da Europa fica no horizonte. "Se funcionou em Paris, pode funcionar em muitos outros lugares. Eles não conhecem a altinha ainda", diz Clarisse. A bola, por enquanto, continua no ar.
Clarisse Lagore e Isadora Liron mantêm o perfil @altinha_paris no Instagram, onde organizam encontros abertos ao público em Paris.
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