Afro Modernismo Brasileiro: a lente que reconhece quem construiu a modernidade do país
Um conceito investigado e difundido por Monique Corrêa documenta arquitetura, arte, moda, design e pensamento produzidos por pessoas negras
Escrito por Roberto Amazonas · 28 de julho de 2026


O Afro Modernismo Brasileiro nasce de uma pergunta simples: como falar do Brasil contemporâneo sem reconhecer a contribuição intelectual, estética e cultural da população negra? "Quando pensamos em cultura negra no Brasil, normalmente somos levados para dois extremos: ou a dor da escravidão ou manifestações culturais já consolidadas. Mas existe um Brasil acontecendo agora", explica Monique Corrêa, designer de moda e criadora de conteúdo que investiga o tema e leva essa discussão para as redes sociais.
O que é o Afro Modernismo Brasileiro
O Afro Modernismo Brasileiro se propõe como uma lente de observação. "É uma forma de compreender como pessoas negras estão construindo novas narrativas sobre o Brasil contemporâneo. Ele fala sobre memória, mas também sobre futuro", diz Monique. "Reconhece a ancestralidade sem aprisionar a identidade negra apenas ao passado."
O conceito parte do entendimento de que a modernidade brasileira sempre teve contribuição negra, mesmo quando essa presença não apareceu nos livros, nas instituições ou nas imagens oficiais. Um dos exemplos centrais é a Semana de Arte Moderna de 1922, marco fundador do modernismo brasileiro, mas também recorte de uma elite paulistana que excluiu nomes negros que já produziam essa mesma modernidade - como os irmãos Timóteo, reconhecidos na Europa como os primeiros modernistas do Brasil, mas nunca convidados a integrar o movimento em solo brasileiro. Outra referência é escritor Lima Barreto.
Presente, não promessa de futuro
O Afro Modernismo se diferencia do afrofuturismo justamente por recusar a projeção para um horizonte distante. "O afrofuturismo é sempre pensado no negro lá no futuro. Ah, quando acontecer, quando os negros chegarem. Mas não, a gente já está, é o presente", afirma Monique. Existe hoje, segundo ela, uma geração negra ocupando universidades e produzindo arquitetura, design, tecnologia, cinema, literatura, gastronomia, moda, música, negócios e pensamento e é a linguagem dessa geração que o conceito busca nomear.
Para Monique, documentar essa produção é uma forma de reconhecimento que dispensa justificativa.
"SE A GENTE TEM ISSO CATALOGADO, DOCUMENTADO, FALADO, NARRADO, A GENTE NÃO FICA MAIS BUSCANDO DESCULPAS PARA JUSTIFICAR POR QUE SOMOS QUEM SOMOS HOJE."
Um Brasil, muitos Brasis
Um dos cuidados centrais do conceito é não reduzir a identidade negra brasileira a uma única estética ou região. "Não tem como a gente se colocar numa caixinha só. Aqui são vários Brasis. É do Norte, é Nordeste, é Centro, é Sul", diz Monique, que cita como exemplo os primeiros clubes negros do Sul do Brasil, formados ainda no século XIX — hoje responsáveis por reescrever até nomes de ruas e memórias locais que haviam sido apagadas.
A MoNA como arquivo
O Afro Modernismo Brasileiro ganha corpo através da MoNA - Magazine of New Afromodernism, plataforma de pesquisa, curadoria e produção de conteúdo dedicada a documentar o tema. "Meu objetivo é documentar pessoas, ideias, projetos, obras e movimentos que ajudam a construir esse novo imaginário sobre o Brasil", explica Monique. "Quero que daqui a vinte ou trinta anos exista um lugar onde seja possível entender como essa geração pensava, criava e transformava a cultura brasileira."
A investigação, iniciada em 2025, ainda caminha quase do zero — "ainda tem pouquíssimas coisas na internet falando sobre isso", conta Monique — e se constrói a partir de histórias familiares e fragmentos dispersos, como o caso de uma pesquisadora que documentou, a partir da própria família, os negros que participaram da construção de Brasília, história até então invisibilizada.
Repertório e referências
Para Monique, o Afro Modernismo Brasileiro só ganha densidade quando alimentado por um repertório amplo e em constante construção. Entre as referências históricas que ajudam a compor essa base estão Lima Barreto, Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez, ao lado de nomes como Gilberto Gil e Djavan, que atravessaram a música e o pensamento brasileiro deixando marcas que vão além do entretenimento. Na produção contemporânea, ela cita La Robertita, Luanda Vieira e Fabrício D'Art como criadores que ajudam a nomear e expandir o que o conceito propõe.
No campo das artes visuais e do design, Monique aponta a Galeria Lateral, iniciativa de curadoria voltada a novos artistas negros que também atua no fomento ao colecionismo negro, e nomes como o arquiteto e designer Nicholas Oher e o designer de móveis Vitor Xavier, que desenvolve seu trabalho a partir do reaproveitamento de materiais.
Mas há um ponto que Monique faz questão de deixar claro: construir repertório não significa restringir as referências a espaços associados exclusivamente à cultura negra. Para ela, a amplitude das referências é o que garante que o Afro Modernismo Brasileiro não se feche numa bolha, mas se afirme como parte constitutiva da cultura brasileira como um todo.
"EU VOU INDICAR O MASP, EU VOU INDICAR O IMS, PORQUE É REPERTÓRIO. EU ACHO QUE A GENTE TEM QUE CONSTRUIR ESSE REPERTÓRIO PARA ALÉM DA POPULAÇÃO NEGRA QUE ESTÁ CONSTRUINDO."
Uma conversa coletiva
Monique é clara sobre o que espera do Afro Modernismo Brasileiro a longo prazo: que ele deixe de ser uma pesquisa solitária para se tornar algo maior do que ela. "Meu desejo é que o Afro Modernismo Brasileiro deixe de ser apenas uma pesquisa minha. Que se transforme em uma conversa coletiva", diz. A MoNA existe, em parte, como um convite para que outras pessoas entrem nessa conversa, tragam seus fragmentos, suas histórias familiares, seus arquivos dispersos e ajudem a construir um acervo que nenhuma pessoa sozinha seria capaz de reunir.
Para ela, o propósito da plataforma não é definitivo nem acabado. "Se a MoNA conseguir criar esse espaço de encontro, ela já terá cumprido uma parte importante do seu propósito." O restante virá do que a conversa produzir, das conexões que ainda não aconteceram, das histórias que ainda não foram contadas.
No fundo, é isso que o conceito propõe: "O Afro Modernismo Brasileiro é uma conversa sobre um Brasil que ajudou a construir a modernidade, mas raramente foi reconhecido como parte dela." Reconhecer essa contribuição não é um gesto de reparação simbólica. É uma forma de entender o Brasil com mais precisão, profundidade e honestidade.
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