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Cultura & Comportamento · Brasil no Mundo

"O Brasil é um lugar muito desafiador para criar produto, mas tem pessoas que merecem receber esses produtos": Duda Franklin, fala sobre neurotecnologia e IA no Brasil


Nascida em Natal, a neurocientista e engenheira biomédica fundou a primeira fábrica de neurotecnologia aprovada pela Anvisa na América Latina

Escrito por Roberto Amazonas · 15 de setembro de 2026

"O Brasil é um lugar muito desafiador para criar produto, mas tem pessoas que merecem receber esses produtos": Duda Franklin, fala sobre neurotecnologia e IA no Brasil 
 

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Crédito: Acervo pessoal

Duda Franklin cresceu em Natal dizendo para todo mundo que ia morar no Japão e construir um foguete para levar pessoas a Marte. Tinha nove anos quando escreveu isso num caderno escolar e não estava brincando. Aos 13, aprendeu a programar. Aos 14, já dividia bancada com professores, mestres e doutores como pesquisadora júnior na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aos 25, era mestre em neuroengenharia e gestão de negócios tecnológicos, havia desistido da vaga de doutorado, largado o emprego do dia para a noite e fundado a Orby, deeptech de Natal que desenvolveu um sistema de neuromodulação não invasiva e inteligência artificial para reabilitação neuromotora.

Quatro anos depois, a Orby tem a primeira fábrica de neurotecnologia aprovada pela Anvisa na América Latina, patentes em mais de 30 territórios e casos de pacientes que tiveram expressiva melhora na mobilidade. A Badauê conversou com ela sobre o que a tecnologia pode fazer pelo corpo humano, sobre o Brasil que ainda não aprendeu a apoiar quem inventa dentro de casa e sobre o que acontece com a consciência quando a máquina desliga.


A arte de se virar

O percurso da Orby não foi construído com os recursos que as deeptech americanas costumam ter. Duda é direta sobre isso e afirma não ter tido tanto investimento como as empresas lá de fora tiveram. Mas há algo que ela identifica como uma vantagem específica de quem veio de onde veio: "Eu fiz com muito pouco, uma coisa que é muito brasileira, a arte de se virar. Eu e meu time fundador viemos da comunidade. E quem nasce na comunidade tem um rolê que é a arte de se virar."

Essa arte rendeu resultados que o mercado financeiro brasileiro não esperava. "Peguei o problema matemático e físico que as pessoas olharam e falaram que não ia dar. Deu, saiu em quatro anos." Quando a Orby apresentou um produto com hardware proprietário e IA própria, a resposta do Google foi investir. Quando quis escalar, Duda decidiu construir uma fábrica. "As pessoas falaram que não rolava construir fábrica. Eu falei: não rola porque não é bitola. Eu sou bitolada em indústria desde os 15 anos”. Apesar de considerar o “jeitinho brasileiro” importante, faz questão de não normalizá-lo e enfatiza a importância de que frentes, como a ciência, precisarem contar com mais recursos para ter melhor estrutura.


Os resultados não mensuráveis

A Orby trabalha com neuromodulação não invasiva: um dispositivo colocado sobre a pele que emite ondas eletromagnéticas capazes de estimular o sistema nervoso e reativar áreas do cérebro que pararam de funcionar. A tecnologia, combinada com inteligência artificial, ajuda a reabilitar movimentos perdidos por AVC, Parkinson, lesão medular e traumas. Sem cirurgia e sem implantes.

"Eu não fui pelo lado da Neuralink. Eu não abro sua cabeça. Engenheiros gostam de fazer isso sem abrir nada, sem sangue." A escolha também é estratégica. Segundo Duda, do ponto de vista de negócios, escalar um implante é muito difícil por tornar-se um processo caro. “Eu quero fazer para as massas. Eu gosto de fazer um N de milhões."

Os casos que ela narra dizem mais do que qualquer dado financeiro. Uma paciente com lesão medular incompleta que ficou um ano e meio sem conseguir mover a metade do corpo e voltou a andar de muleta. Um ultramaratonista que correu 226 quilômetros com o suporte da tecnologia. Uma pessoa com AVC que conseguiu segurar um copo de novo.


"PARA A GENTE, SEGURAR UM COPO É ALGO BANAL. PARA UMA PESSOA QUE TEVE AVC, É UMA VITÓRIA DE VIDA. EU CONSIGO BEBER ÁGUA SOZINHO. EU CONSIGO ESCOVAR OS DENTES SOZINHO. É IMPAGÁVEL. É UM RESULTADO QUE WALL STREET NÃO CONSEGUE MENSURAR."

Os resultados não mensuráveis
Crédito: Acervo pessoal

O Brasil que inventa e o Brasil que ignora

Duda tem uma leitura precisa e incômoda sobre o ecossistema brasileiro de tecnologia. Para ela, poucas empresas brasileiras realmente fazem modelos nativos e consomem muito de big techs estrangeiras, como Gemini. Parte do problema está no mercado financeiro nacional: "Os nossos fundos brasileiros investem em deeptechs americanas, mas têm um milhão de ressalvas para investir nas deeptech brasileiras. É quase como se estivessem falando: se vocês estão criando algo novo, saiam do Brasil para criar isso."

O paradoxo que ela identifica é revelador. Fora do Brasil, é recebida como cientista de ponta. Dividiu palco com pesquisadoras da NASA. Em Singapura, estudantes universitários faziam fila para fotografar com ela e escreviam trabalhos acadêmicos sobre seu trabalho. No Google, vice-presidentes a ouviram e investiram. Dentro do Brasil, o caminho foi mais árduo. "Eu sofri mais dentro do Brasil do que fora dele."

Ela não economiza nas palavras sobre o que isso significa para quem tenta construir no Brasil: "A galera que só desiste. Cientistas brilhantes que olham e falam: eu não vou ser humilhado por toda a minha vida ganhando pouco. E às vezes a gente perde soluções brilhantes porque o habitat é muito desafiador."

Mas a resistência não é resignação. A mensagem que ela deixa para quem inventa dentro do Brasil combina lucidez com teimosia:


"PERSISTA, RESISTA. FAÇA AQUI. FAÇA A ARTE DE UM BOM BRASILEIRO: UM, SONHAR. DOIS, FAZER. FAZER E ENTREGAR COMO PODE, MAS ENTREGAR."

No futuro, espera encontrar respostas
Créditos: Acervo pessoal

No futuro, espera encontrar respostas

Quando perguntada sobre o que a ciência ainda não conseguiu descobrir sobre o cérebro e que ela gostaria de entender, Duda vai longe. Afirma ter vontade de descobrir o que acontece quando a estamos morrendo “Eu queria saber o que vem na nossa cabeça. Será que passa aquele vídeo rebobinando da vida? E depois que a máquina desliga, o que acontece com a consciência? Fica tudo preto? Ela vai para onde?"

É a mesma curiosidade que a levou da maquete de tomógrafo na feira de ciências aos algoritmos de neuromodulação. A mesma que a faz acordar todo dia para trabalhar num problema que a maioria das pessoas ainda não sabe que existe.


"O CÉREBRO É UMA DAS MÁQUINAS MAIS EFICIENTES E DESCONHECIDAS DO MUNDO. ENTENDER O FUNCIONAMENTO DELE, AS NUANCES DELE, JÁ É UMA GRANDE SACADA."

O que a Orby persegue para o futuro é expandir o domínio que hoje tem sobre o sistema motor para outros sistemas do corpo e conectar sua tecnologia a outros dispositivos, celulares, computadores e máquinas. Aproximar ainda mais o cérebro do mundo físico. "A gente só entende o valioso de andar, escovar os dentes, correr, quando isso é tirado da gente ou quando a gente nunca teve isso."


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